Atualização da Paisagem Urbana Carioca
A construção de um novo Distrito Internacional de Entretenimento e Cultura na Cidade do Rio de Janeiro
O projeto para o Museu do Carnaval do Rio nasce junto com o Masterplan Sambódromo, projeto que apresentamos à Prefeitura do Rio e foi prontamente incorporado ao leque de novas intervenções na cidade a partir de 2025. Nosso plano urbano para o entorno do Sambódromo propõe requalificar a área a partir da demolição do Elevado 31 de Março, um viaduto construído na década de 1960, parte de uma paisagem urbana que se espalhou pela cidade neste período: as vias expressas, avenidas de alta velocidade cruzando a cidade em áreas urbanisticamente consolidadas. Sua implantação foi, para dizer o mínimo, traumática, contribuindo para degradação atual de diversas localidades na cidade, entre elas, o Catumbi.
Importante lembrar que, nesta época, a cidade não possuía a rede de mobilidade urbana que hoje a serve, como metrô, BRT, VLT, linhas de ônibus (expandida), transporte por aplicativo, ciclovias, barcas (expressas) etc. Era, até certo ponto, uma paisagem coerente com sua época. Entretanto, a cidade do Rio de Janeiro de 2025 não é mais a mesma da década de 1960. Mas sua paisagem urbana não acompanhou a evolução da mobilidade e tecnologia (trabalho remoto, por exemplo), mantendo um desenho urbano incompatível com as demandas da cidade contemporânea.
Uma paisagem urbana defasada gera prejuízos de toda ordem que afetam diretamente a qualidade de vida dos seus habitantes e o potencial econômico de uma cidade. Prejuízos ambientais (como inundações, formação de ilhas de calor, perda de biodiversidade, poluição), econômicos (redução das atividades comerciais, baixa geração de emprego, reduzida arrecadação municipal) e sociais (violência, aumento da desigualdade social) são algumas consequências que saltam aos olhos quando nos deparamos com essas infraestruturas datadas. Após mais de 50 anos, esses elementos não conseguiram produzir qualidade urbanística na cidade, e geram despesas ao invés de receitas para a municipalidade.
Nosso Masterplan para a região do Sambódromo demole o Elevado 31 de Março – mas mantém sua capacidade viária ao rés do chão – e reconfigura o espaço urbano remanescente para adequá-lo a uma nova condição urbana que tem o Sambódromo, a ser reformado como parte do escopo do Masterplan, e o tecido urbano histórico do Catumbi como principais protagonistas. Trata-se de uma reparação histórica para uma região que foi muito prejudicada com a construção desta via expressa.
Desta forma, a demolição do Elevado garante espaço suficiente para construção de um novo distrito de entretenimento e cultura na cidade, com alcance internacional, abrigando cerca de 12 mil novos moradores, lojas de bairro, praças, parques, além de duas novas âncoras culturais, que vão se somar ao Sambódromo: o nosso Museu do Carnaval do Rio, junto à Praça da Apoteose, e o Centro das Culturas, no Terreirão do Samba - uma sala de espetáculos com capacidade para até 4mil pessoas que se abre para o exterior (tal qual o Auditório do Ibirapuera, também desenhado por Oscar Niemeyer). O novo distrito cultural já nasce com um conjunto de usos e atividades com capacidade para atrair mais de 1 milhão de pessoas/ano para a região, gerando urbanidade, empregos, mais receitas para municipalidade e, acima de tudo, ativando a economia local.
Museu do Carnaval do Rio
Um Equipamento Local com Alcance Global
Uma das questões não resolvidas do Sambódromo durante o carnaval é o momento do término do desfile de cada escola de samba e a posterior dispersão das pessoas. Uma multidão sai pela Praça da Apoteose e se aglomera na Rua Frei Caneca, sem infraestrutura de apoio ou espaço adequado para a circulação. Mas isso ocorre somente durante o carnaval. Outro problema que acontece no restante do ano é a subutilização do Sambódromo, em especial a Praça da Apoteose. Apesar das escolas municipais sob suas arquibancadas, a Praça permanece sem acesso, gradeada e muito árida, se tornando uma barreira para os moradores do Catumbi. O Sambódromo, idealizado há 40 anos por Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e Oscar Niemeyer como um equipamento cultural e educacional, um elemento de costura social, acabou se tornando o oposto, isolando, junto com o Elevado 31 de Março, o bairro do Catumbi da Cidade Nova e seu entorno.
O novo Museu do Carnaval do Rio, localizado em terreno municipal junto e atrás da Praça da Apoteose, surge com a incumbência de resolver não só os problemas objetivos do Sambódromo e da região descritos acima, como também consolidar a construção do novo distrito internacional de entretenimento e cultura do Rio e, ao mesmo tempo, resgatar a urbanidade do Catumbi e arredores, com a oferta de espaços de lazer, permanência e encontro, somados a eventos culturais e atividades de formação técnica voltadas para o universo do carnaval.
Algumas questões fundamentais surgem quando pensamos na inserção de uma edificação contemporânea no limite entre a malha urbana do século XIX e um monumento moderno, de grande escala, tombado pelo IPHAN. São objetos com tempos e escalas distintas, entretanto ambos são parte fundamental da memória urbana carioca e como tal devem ser respeitados e enaltecidos. Desta forma, a estratégia projetual se ancora em dois elementos interdependentes:
1. A construção de um embasamento, na escala do casario do entorno, conformando uma praça voltada para o Sambódromo, para receber, em dias de carnaval, a dispersão da multidão. E, no restante do ano, torna-se um espaço de encontro, permanência e eventos ligados ao Museu. Em seu interior, estão os usos de caráter público, como auditório, estúdio de música, sala multiuso (exposições, cursos, palestras), restaurante, cafeteria, loja, bilheteria e chapelaria. Uma grande escadaria-arquibancada faz a conexão entre todos os níveis e espaços, podendo também ser utilizada como superfície de exposição ou permanência para assistir eventos que ocorram no foyer e na praça;
2. Acima do embasamento, desenhamos um volume de coroamento, destacado na composição, que abriga as exposições sobre o carnaval. De altura equivalente aos arcos da Praça da Apoteose, este elemento é responsável pela relação simbólica e arquitetônica com o Sambódromo. Sua estrutura e materialidade garantem uma condição “autônoma”, efêmera em relação a composição do Museu, como se a qualquer momento pudesse se deslocar, como um carro alegórico, e sair pela avenida... Tal qual pensado pelo grupo inglês Archigram com sua proposta Walking City (1964), verdadeiras alegorias urbanas em escala monumental.
A ligação entre o Museu do Carnaval e o Sambódromo é também reforçada com a proposta de abrir a Praça da Apoteose para visitação, como uma extensão do Museu, retirar suas grades, qualificar seu acesso e entorno imediato e transformar o espaço existente sob os arcos da Praça da Apoteose no Museu do Sambódromo, espaço dedicado a contar a estória da construção deste monumento, uma tipologia inventada por Oscar Niemeyer para um programa arquitetônico híbrido, que nasceu com a missão de unir educação, cultura e eventos (um dos maiores do mundo!).
Desta forma, o Museu do Carnaval do Rio transcende sua função museográfica e reestabelece a costura social e urbana outrora proposta no projeto original do Sambódromo, contribuindo de forma decisiva na criação do novo distrito internacional de entretenimento e cultura no Rio de Janeiro. Sua materialização será o reconhecimento da importância do carnaval e sua história na formação cultural da cidade e seu povo.
Conselho Curatorial:
Helena Theodoro, Luiz Antônio Simas, Moacyr Luz e Rachel Valença
Cliente: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro
Parceiro: MUDE_André Eppinghaus
Local: Entorno do Sambódromo, Catumbi, Rio de Janeiro, RJ.
Área: 8900m2
Data: 2025-2028
Equipe (AAA+MUDE): André Eppinghaus, André Godinho, Carlos Augusto Alfradique, Carlos Nem, Fernanda Lobianco, Lucas Campbell, Marcos Borboto, Marcelo Fernandes, Natalia Lamothe, Pedro Maia, Rodrigo Azevedo, Thayane Abreu.