O conjunto de projetos desenvolvidos pelo escritório para equipamentos circenses parte da formulação de uma nova tipologia arquitetônica, definida como um “circo cultural”. Trata-se de uma proposta híbrida, que articula o circo tradicional a um conjunto de espaços complementares organizados, em grande parte, sob as arquibancadas. Esses espaços incluem salas de aula, áreas para eventos, camarins, sanitários, áreas técnicas e pontos de alimentação, permitindo que o equipamento amplie significativamente seu escopo de atuação e passe a funcionar como um centro cultural multifuncional.
O desenvolvimento dessa tipologia teve início em 2016, a partir de um projeto de expansão para o Circo Crescer e Viver. Embora não tenha sido executado à época por questões financeiras, o projeto foi reconhecido internacionalmente ao ser selecionado para representar o Brasil na Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza naquele mesmo ano. Posteriormente, o conceito foi retomado e aprimorado em parceria com a Prefeitura de Mesquita (RJ), onde já existia a operação de um circo tradicional voltado ao ensino e às atividades culturais. Nesse contexto, o projeto evoluiu para uma solução mais compacta, estruturada a partir de uma cobertura em lona tensionada e arquibancadas em concreto armado, incorporando, além do picadeiro, salas de aula, camarins, sanitários e lanchonete. Esse primeiro equipamento, já denominado Circo Cultural, encontra-se em vias de inauguração.
Na sequência, foi solicitada a implantação de uma segunda unidade em Mesquita, com ampliação do programa educacional. Nesse caso, as salas de aula adicionais foram organizadas em um edifício anexo ao circo principal, mantendo a lógica tipológica, porém expandindo sua capacidade de atendimento. A obra encontra-se em execução, com inauguração prevista para junho de 2026. Paralelamente, o escritório retornou ao Circo Crescer e Viver após a destruição de sua estrutura original por um evento climático extremo em 2025. O novo projeto incorpora plenamente a tipologia desenvolvida ao longo dos anos, consolidando o conceito de circo cultural. Após um ano de obras, sua inauguração ocorreu em 27 de março de 2026, data em que se celebra o Dia Internacional do Circo. Além desses projetos, encontra-se em desenvolvimento uma proposta para a Escola Nacional de Circo, na Praça da Bandeira (RJ), vinculada ao plano de ocupação do terreno da antiga Estação Barão de Mauá.
Do ponto de vista disciplinar, projetar um circo implica compreender que a arquitetura pode extrapolar o atendimento estrito às demandas funcionais do espetáculo circense. Ao incorporar atividades educacionais, culturais e de convivência, o projeto passa a lidar com um programa mais complexo, que envolve maior diversidade de usos e públicos. Essa ampliação impacta diretamente a espacialidade, a materialidade e o desempenho do edifício, ao mesmo tempo em que potencializa seus efeitos urbanos, tornando-o mais inclusivo e ampliando o alcance do investimento público.
Embora os projetos apresentem grande similaridade formal — caracterizada essencialmente pela combinação entre lona e arquibancada —, diferenciam-se nas especificidades de seus programas complementares. Essas variações se manifestam principalmente na escala do detalhe, nas soluções de fechamento, nas aberturas e na organização interna dos espaços. Apesar dessas distinções, todos os equipamentos compartilham uma dimensão fundamental: o forte compromisso com a função social nos territórios em que se inserem.
Tradicionalmente, a construção de circos é marcada por processos artesanais, frequentemente conduzidos por estruturas familiares e baseados em conhecimentos transmitidos ao longo de gerações. Trata-se de uma prática consolidada, que independe da atuação de arquitetos. No entanto, a evolução dos materiais e das tecnologias construtivas vem permitindo maior durabilidade e rapidez na montagem dessas estruturas. A inserção do arquiteto nesse contexto não busca substituir esse saber tradicional, mas reinterpretá-lo à luz de novas demandas, articulando tradição e inovação na concepção de um novo objeto arquitetônico.
Entre os aspectos mais inovadores dos projetos destaca-se a institucionalização do circo como equipamento cultural e educacional permanente. Ao incorporar usos complementares, o circo deixa de ser apenas um espaço itinerante ou eventual, passando a constituir um equipamento público estruturado, aberto e contínuo. Essa transformação amplia seu papel social, permitindo a formação de jovens não apenas nas artes circenses, mas em diversas outras atividades, e consolidando o circo como um elemento perene no tecido urbano e no imaginário coletivo.
No desenvolvimento dos projetos, foram priorizados o conforto ambiental dos usuários e a eficiência energética, especialmente considerando o caráter de permanência prolongada desses espaços. A cobertura em lona foi especificada com propriedades que minimizam o ganho térmico interno, enquanto estratégias passivas, como ventilação cruzada e exaustão natural, foram amplamente exploradas. Complementarmente, foram adotados sistemas de climatização e uma organização funcional dos espaços baseada na proximidade entre usos correlatos. Outro aspecto fundamental é a relação fluida entre interior e exterior, concebendo o equipamento como um espaço contínuo e integrado ao entorno urbano. A forma circular da lona, aliada às cores vibrantes e à diversidade programática, contribui para transformar esses circos culturais em marcos de referência nas regiões onde se inserem, conferindo-lhes não apenas relevância funcional, mas também dimensão simbólica e poética.
Cliente: Circo Crescer e Viver / Júnior Perim
Data: 2025
Área: 921m2
Equipe: Pedro Maia, Eliza Lago
Projetos complementares: Andre Franco (cálculo estrutural), JLG Galvão (Iluminação); Embyá Paisagismo
Fotos: Marcos Gusmão