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Folha de São Paulo: Berço do samba, antiga Praça Onze tem pior indicador social do Rio e vira alvo de obra de Paes

Projeto de R$ 1,75 bi prevê demolição de viaduto e construção de 4.000 unidades habitacionais

Os bairros da Cidade Nova, Estácio de Sá e Catumbi, no Rio de Janeiro, que passarão por uma intensa reforma urbana anunciada pelo prefeito Eduardo Paes (PSD), guardam imóveis do início do século 20 que resistiram a outra alteração na geografia local ocorrida há 80 anos, o fim da praça Onze. Na década de 1940 o espaço e as ruas do entorno foram destruídas para a construção da avenida Presidente Vargas, projeto do então presidente Getúlio Vargas. Vinte anos depois, com a popularização dos automóveis, a região ganhou elevados, como o 31 de Março, que conecta o centro e a zona sul da cidade.


A proposta de Paes é demolir o viaduto, paralelo ao sambódromo, na rua Marquês de Sapucaí. No futuro terreno vazio estão previstos prédios com até 4.000 unidades habitacionais, com térreos comerciais, além de hotel e

biblioteca pública.


Os carros que hoje sobem o viaduto passarão por uma pista e um mergulhão. O sambódromo deixará de ter grades e será aberto ao público para feiras e lazer. A prefeitura calcula em R$ 1,75 bilhão os custos da obra. A praça Onze era uma esplanada retangular, com um chafariz ao centro e contornada por árvores. As ruas transversais abrigavam lojas de móveis e couros, cafeterias, bares, clubes e casas de prostituição.


Moravam ali famílias negras, baianas e cariocas, e a comunidade cigana e judaica. Havia escola, cinema, igrejas, sinagoga e casas cujos quintais recebiam o samba e o candomblé. Ali desfilou o rancho Deixa Falar, a primeira escola de samba, apesar de jamais ter competido como tal. Era o grupo de Ismael Silva, Bide, Baiaco e Marçal, compositores que mudaram a história da música brasileira com o samba moderno, interpretado por Francisco Alves, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso. Nas primeiras competições entre escolas de samba, os desfiles contornavam a Praça Onze. A praça foi abaixo a partir de 1941, obra que durou até 1944, com a inauguração da Presidente Vargas. Entre 525 imóveis demolidos estão a escola, o cinema, as igrejas e a sinagoga, além de endereços como a casa onde morou Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata.


Sobreviveu o chafariz, hoje no Alto da Boa Vista.


Sobrados do entorno guardam um resquício da arquitetura local, mas sofrem pela falta de reparo. Segue de pé a vila operária Salvador de Sá, sobrados geminados construídos em 1906. As 94 residências tomam cinco quarteirões da rua de mesmo nome. A posse é por cessão municipal. As fachadas são tombadas e precisam ser mantidas como as originais, com a cor cinza. Mas os prédios possuem danos aparentes, como nas janelas e em balaústres de madeira que formam o cerco das varandas.


A vila operária está em uma Apac (Área de Proteção do Ambiente Cultural), que determina a preservação de imóveis com a característica original. O projeto da Praça Onze Maravilha não prevê demolições dessas edificações, segundo a apresentação inicial. Procurada, a prefeitura afirmou em nota que "o projeto ainda passará por audiências públicas e discussões na Câmara", e que "somente após sua aprovação é que serão realizados o detalhamento dos projetos e demais ações necessárias para a sua execução".


"A vila operária é uma prioridade. Pretende-se uma contrapartida, similar à do porto, onde o percentual da operação urbana vai para o patrimônio histórico", afirma Rodrigo Azevedo, sócio do escritório de arquitetura AAA, responsável pelo projeto urbano. A área portuária do Rio passou por uma intervenção semelhante durante gestão anterior de Paes. O arquiteto cita o projeto Caminho das Lanternas, que prevê a criação de passeios públicos em ruas da Cidade Nova. Com árvores e equipamentos de lazer, o parque linear será fechado para carros. "O parque vai reduzir o efeito de ilha de calor em uma das regiões mais quentes da área central, além de ajudar a preservar o patrimônio edificado da região com a retirada da circulação de carros."


Larissa Letícia Soares, 34, mora há 30 anos na vila operária e diz se recordar de outros projetos que jamais saíram do papel. "Já havia um projeto de reforma da época do Crivella [o ex-prefeito foi obrigado pela Justiça, em 2019, a fazer obras emergenciais na vila operária]. Cheguei a ir a reuniões na associação, agentes foram à nossa casa, mas não foi à frente."


Ela soube do projeto na região através da reportagem. "É muito bom morar aqui, mas às vezes fico preocupada porque as casas são velhas e as árvores da rua tombam sobre os telhados. Eu gostaria que as casas fossem reformadas", afirma.


A Cidade Nova mantém nos sobrados comércio de oficinas mecânicas e borracharias. Ruas como a Laura de Araújo costumam alagar em dias de temporal. Há movimento de tráfico de drogas no bairro. Em contraste, a

Cidade Nova abriga a sede administrativa da Prefeitura e o Centro de Operações do município, edifícios altos, modernos e espelhados. A Cidade Nova foi a última colocada, entre 158 bairros, em um índice criado

pela prefeitura que mediu o progresso social da cidade, em 2022. O IPS (Índice de Progresso Social) é calculado com 36 variáveis colhidas em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), como nutrição,

acesso à água, coleta de lixo, mobilidade e violência. A Cidade Nova acumulou 50,43 pontos, abaixo da média da cidade (64,34). A quatro quilômetros dali, Laranjeiras foi a segunda melhor colocada (77,47), atrás da Barra (79,29).


O IPS voltou em 2024 somente com regiões administrativas. O centro alcançou 63,36 pontos. "O ISP é utilizado para a elaboração do Plano Diretor, contribuindo para a identificação de áreas prioritárias para a ação do poder público", diz o IPP (Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos), em nota. A abertura da avenida Presidente Vargas foi registrada em imagens por Uriel Malta e Aristógiton Malta, filhos de Augusto Malta, principal fotógrafo das reformas urbanas cariocas do século 20. Fotografias inéditas foram

encontradas há dois anos no Arquivo Geral da Cidade. Das 14.000 imagens, 300 foram para um livro que deve ser lançado ainda neste semestre. "Nessas fotos encontramos um centro do Rio que há 100 anos tinha moradia e

trabalho no mesmo lugar. E hoje buscamos o mesmo através do Reviver Centro. Todo processo de uma nova política pública é reconstrução de memória", afirma Lucas Padilha, secretário municipal de Cultura.



Publicado no jornal Folha de São Paulo, 10/02/2026.

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