O prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD) apresenta nesta quinta-feira (20) o projeto que prevê a derrubada do elevado 31 de Março, que liga a zona sul ao centro. O plano inclui alteração urbana no entorno do Sambódromo, com construção de prédios residenciais, abertura da avenida ao público e biblioteca. Divulgado logo após a eleição de Paes para o quarto mandato à frente da prefeitura, em 2024, o projeto é comparado por ele à derrubada do viaduto da Perimetral, em 2013, que modificou a paisagem urbana no entorno da zona portuária, no centro.
A intervenção urbana da vez também será no centro, mas em uma área residencial, que inclui os bairros do Catumbi, Cidade Nova e Estácio de Sá, além da extinta praça 11. A região, que no início do século 20 recebeu judeus, ciganos e famílias pretas do candomblé, e abrigou a mais famosa zona de prostituição da cidade, foi o local de formação do samba moderno, urbano, a partir da década de 1930, pelas mãos de compositores e músicos do Estácio. O samba moderno foi propulsor dos desfiles das escolas de samba, que aconteceram, em suas primeiras edições, a partir de 1932, na praça 11.
O projeto de alteração urbana da região prevê novos prédios com até 4.000 unidades habitacionais, com térreos comerciais, justamente onde passa hoje o elevado. Também há a promessa de um mergulhão e um boulevard.
O plano indica que as ruas do entorno terão nova arborização, praças serão restauradas e calçadas alargadas em até 10 metros de largura. Na avenida Presidente Vargas, próximo ao local de início dos desfiles, a previsão é de um edifício com garagem subterrânea para 1.600 vagas. O prédio deve ganhar desenho semelhante ao do Congresso, em Brasília, numa homenagem a Oscar Niemeyer. Ao lado do prédio residencial estarão uma arena multiuso e um hotel.
O atual Terreirão do Samba, resquício da antiga praça 11 e que atualmente abriga apresentações musicais esporádicas durante o Carnaval, terá parte de seu terreno usado para um novo espaço cultural. Chamada de "Biblioteca dos Saberes", a área de 40 mil m² será projetada pelo arquiteto alemão Francis Kère, vencedor do último prêmio Pritzker.
Projetada por Niemeyer e entregue em 1984 durante o governo de Leonel Brizola (PDT), a Marquês de Sapucaí, avenida dos desfiles, foi idealizada por Darcy Ribeiro como um espaço com escola pública, centro cultural e a pista usada durante o Carnaval.
Atualmente a pista é fechada ao público durante o ano. A praça da Apoteose, onde acabam os desfiles, eventualmente recebe shows. Segundo Azevedo, a ideia é abrir a praça ao público, retirando as grades e criando uma esplanada. A avenida será liberada para eventos, como feiras gastronômicas.
Em dezembro do ano passado, o Cau/RJ (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio) enviou ofício à prefeitura para entender o projeto.
"Não recebemos o plano detalhado e é importante conhecer o projeto. Mas, de fato, aquela área do Sambódromo foi degradada. Houve um projeto na década de 1980 que previa atender o entorno do Sambódromo e seus casarões. Esperava-se que o Sambódromo fosse o condutor de uma renovação, mas não foi. Ele parece uma ilha", afirma o presidente do Cau/RJ, Sydnei Menezes.
Rodrigo Azevedo, dono da AAA_Azevedo Agência de Arquitetura, responsável pelo projeto de requalificação urbana, trata a área como um futuro "distrito de entretenimento e cultura".
"É uma dinâmica deste século para uma parte da cidade que foi desfigurada no século passado. O Sambódromo não funciona quando a população consegue vê-lo. E quando funciona, durante o Carnaval, ele é envelopado por patrocínios e desaparece da paisagem. A proposta é que ele volte a fazer parte da paisagem."
Urbanistas e historiadores apontam que a construção do elevado 31 de Março, inaugurado em 1977, afetou a vida do Catumbi. O viaduto separou o bairro em dois, forçou a transferência de famílias, criou áreas abandonadas, como debaixo do viaduto, e impactou a cultura local —o principal símbolo é o Bafo da Onça, bloco carnavalesco.
"O Bafo da Onça saía do Catumbi em direção ao centro, e todas essas intervenções no bairro afetam diretamente a convivência dos moradores com o bloco. A obra fez com que parte das famílias se mudasse para as comunidades da Vila Aliança e Vila Kennedy, ambas em Bangu", afirma o Diogo Cunha, coautor do livro "As Onças-Pintadas do Catumbi", ao lado de Jorge Luiz Barbosa e Ana Thereza de Andrade Barbosa.
A criação do elevado foi a segunda de quatro grandes intervenções urbanas na região no século 20. Fez parte do plano Dioxiadis, criado na década de 1960 para conectar a cidade priorizando o deslocamento por carro.
"Era coerente com a época, mas foi demolidor do tecido urbano. Gerou violência, poluição, e agora queremos que esse espaço produza receita, emprego e serviço ambiental", afirma Azevedo, da agência de arquitetura.
Na década de 1940, a praça 11 já havia acabado para a passagem da avenida Presidente Vargas. Vinte anos depois foi inaugurado o túnel Santa Bárbara, que conecta Laranjeiras ao Catumbi. De 1983 a 1984 houve a obra que abriu a Marquês de Sapucaí.
As pesquisas de Cunha apontam que 529 imóveis foram desapropriados com o conjunto de intervenções.
"A obra do túnel começa em 1948, e o Sambódromo é entregue em 1984. São quase 40 anos de uma população fortemente afetada por essas intervenções", diz Cunha.
Publicado no jornal Folha de São Paulo, 20/11/2025.
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