Lona colorida, arquibancada e picadeiro continuam lá. Mas, no traço do arquiteto carioca Rodrigo Azevedo, do escritório AAA_Azevedo Agência de Arquitetura, o circo ganha novas camadas: salas de aula, espaços de convivência e estrutura para formação artística e cultural. O precursor desse modelo é o Circo Crescer e Viver, na Cidade Nova, reinaugurado no fim de março após ser destruído por um temporal um ano antes, e que agora simboliza uma nova geração de equipamentos culturais voltados à inclusão e à vida comunitária.
O novo projeto mantém a essência do picadeiro, mas incorpora soluções arquitetônicas que permitem o uso permanente do espaço para atividades educativas e comunitárias.
— A ideia é trabalhar com uma tipologia híbrida: preservar o circo tradicional, com lona e arquibancada, mas incorporar funções que o transformem num centro cultural — explica Azevedo, que divide a autoria do projeto com o também arquiteto Pedro Maia.
O conceito não é novo. Surgiu em 2016, quando o arquiteto desenvolveu um projeto de expansão para o próprio Crescer e Viver. Embora não tenha sido executada à época por falta de recursos, a proposta chamou atenção internacional e foi selecionada para a Bienal de Arquitetura de Veneza naquele ano.
Modelo avança na Baixada Fluminense
A virada veio quando a Prefeitura de Mesquita, na Baixada Fluminense, decidiu apostar no modelo. O primeiro Circo Cultural da cidade, em fase final de implantação, deve ser inaugurado ainda no primeiro semestre. A estrutura combina lona tensionada com arquibancada de concreto e abriga, além do picadeiro, salas para aulas, atividades culturais e áreas de convivência.
O sucesso da iniciativa levou ao desenvolvimento de uma segunda unidade no município, atualmente em construção e com inauguração prevista para junho de 2026. Diferentemente da primeira, o novo projeto contará com um edifício anexo, ampliando o número de salas de aula e reforçando o caráter educacional do complexo.
Além de Mesquita, Azevedo também atua em projetos urbanos no entorno do Sambódromo e da antiga Estação Barão de Mauá, que incluem a modernização da Escola Nacional de Circo, na Praça da Bandeira.
Nos chamados circos culturais, a arquitetura busca equilibrar tradição e inovação. A construção circense, historicamente marcada por processos artesanais transmitidos entre gerações, é reinterpretada com o uso de materiais mais duráveis e soluções de conforto ambiental, sobretudo em regiões onde o acesso a equipamentos culturais ainda é limitado.
— Existe uma sabedoria técnica própria desse universo. O papel da arquitetura não é substituir isso, mas dialogar com essa tradição e adaptá-la às demandas atuais — afirma o arquiteto.
Entre as soluções adotadas estão lonas com tratamento térmico, ventilação cruzada e sistemas de exaustão natural, que ajudam a reduzir o calor interno. Os espaços sob as arquibancadas são organizados para integrar usos distintos, criando uma relação fluida entre as atividades e o entorno.
Publicado no jornal O Globo, em 07/04/2026.
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