Tradicional ponto de boemia na Glória, que já serviu de cenário para filmes e novelas e costumava ser frequentado por artistas, o Bar do Zé, na Rua Barão de Guaratiba, está fechado desde último dia 27 de março, quando parte de uma parede lateral desabou. Um novo desmoronamento aconteceu na última quinta-feira, agravando ainda mais a situação do estabelecimento, que também enfrenta uma batalha judicial pela posse de um terreno vizinho para conseguir retomar suas atividades.
Tudo começou com a invasão do espaço ao lado do bar, por uma mulher identificada como Cláudia e que alega que o local seria quintal de sua casa. Intervenções promovidas por ela, como a retirada de árvores e pedregulhos, teriam provocado os dois desmoronamentos. O uso do terreno também é reivindicado na Justiça por outra pessoa, identificada como J. Clarismar, que diz cuidar do lugar há cinco anos.
Do outro lado, a família de José Anselmo Filho, o Seu Zé, garante fazer uso da área, como apoio do bar, há mais de quatro décadas. Segundo Mércia Ribeiro, filha do proprietário do estabelecimento, o espaço vizinho era utilizado para o armazenamento de engradados de bebidas, mesas, cadeiras e outros materiais de operação do comércio.
Com base nessa utilização histórica e continuada do espaço pela mesma família, frequentadores, clientes e moradores organizaram um abaixo-assinado pedido que a Justiça reconheça Seu Zé e sua esposa Maria Ivonete Ribeiro Anselmo como detentores do direito de utilização daquela área. A petição foi feita por meio da plataforma Change.org e já angariou mais de 1.400 adesões. Outras 120 assinaturas presenciais também foram colhidas pela família.
— Meus pais estão lá desde 1982. Compraram o ponto, onde funcionou o histórico armazém "A Pérola de Guiné" do antigo dono Sr. Rocha, que já usava o terreno do número 47 da rua como apoio de seu negócio. Agora, do nada, surgem essas pessoas se dizendo donas. O que estão tentando fazer é uma grande covardia — argumenta Mércia.
A família busca uma liminar para obter acesso ao terreno e iniciar a retirada dos entulhos. Enquanto isso o bar segue fechado. Para os proprietários, a definição judicial sobre a posse do terreno é considerada essencial para viabilizar a limpeza do espaço e elaborar um projeto de recuperação do imóvel, que também foi interditado pela Defesa Civil, já que o muro vizinho apresenta riscos.
— Como é um prédio histórico a gente teve de contratar uma empresa especializada — disse Mércia, que encomendou um projeto ao arquiteto Rodrigo Azevedo, responsável pela reforma da Estação Leopoldina.
O imóvel do bar não é tombado, mas como está localizado em Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC), as intervenções devem ser previamente autorizadas pelos órgãos competentes, incluindo o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).
Também causou indignação nos familiares a retirada de um grafite em homenagem a Seu Zé e que, segundo eles, era visto como um símbolo da ligação do comerciante com a rua e o bairro. O GLOBO não conseguiu contato com os outros dois moradores que também reivindicam a posse do terreno.
Estamos a frente da reconstrução do nosso querido Bar do Zé.
Publicado no jornal O Globo, caderno Rio, em 24/06/2026
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